Yellow Kite
"Quanto a ti, já reparaste como o mundo parece feito de pontas e arestas? Já chamei tua atenção para a escassez de contornos mansos nas coisas? Tudo é duro e fere. Observo, observas como ele se move sem choques por entre as pontas. Te parece elegante, assim sinuoso, evitando toques que possam machuca-lo? Pois a mim parece falso, conheço bem suas tramas e sei de todas as vezes que concedeu para que o de fora não o magoasse." (Caio)
Claro, se encaixa tão bem. Sempre. Entre os espaços que foram deixados, entre os vãos do caminho.
Uma droga. Tudo isso. Adoraria conseguir ser menos intensa. Ser menos fina. Não acreditar que encontrei no conhecido de ontem o meu último e único e primeiro amor da última semana. Ter coragem de dizer e gritar e berrar tudo o que fica na garganta. Não ser tão sensível. Conseguir demonstrar meus verdadeiros sentimentos - alegria, raiva, paixão - independente do lugar, da situação, da pessoa. Mas não. Eu ainda aposto na saída à francesa, na classe, no esnobe. Aposto em agir com frieza com quem me feriu, e com isso apenas giro a faca com a qual fui apunhalada. Estrago maior.
E sim, eu sou dramática. E sim, eu sou ingênua. E tanto drama e ingenuidade juntos não poderiam resultar em uma coisa lá muito positiva.
"Não, não sei o que gostaria que você me dissesse. Dorme, quem sabe, ou está tudo bem, ou mesmo esquece, esquece. Não consigo. (...) Dentro de mim, não consigo deixar de pensar que há alguma espécie de sentido. E um depois." (Caio, mais uma vez)
E sim, eu sei. Em pouco tempo isso passa, cura, cicatriza. E eu me abro mais uma vez, e me solto, e vôo. Bem alto, até a próxima queda. Um círculo vicioso.
"I want you to know
You don't need anyone, anything at all
Who's to say where the wind will take you
Who's to say what it is will break you
I don't know which way the wind will blow
Who's to know when the time has come around
Don't wanna see you cry"
Alta, pairando, leve. Insustentável. E amarela.
(Drama drama, ui)

3 Comments:
Notei influências diretas da nossa conversa (Kite? Amarelo? À francesa?).
Não sei se tenho muito o que acrescentar. Como disse, acho que nessas situações deveríamos nos dar ao direito de não sermos racionais. Porque não quebrar os pratos, dizer coisas insanas e sair batendo a porta atrás?
A verdade é que o silêncio machuca. A verdade é que, com o tempo, esse silêncio se grava como uma puta falta de mobilidade. Como se tivéssemos passado passivamente pela situação, sem o direito de ter tentado alterar o rumo das coisas. Por isso, o meu conselho para todos de agora em diante é: se for sair, pelo menos faça o maior barulho possível. Alguma coisa tipo "sair à italiana".
A alegoria da Kite é eterna, minha favorita. Sim, altos e baixos. Tem hora que não venta e ficamos entediados. Tem hora que venta tanto que quase rasgamos ao meio. Tem hora que fica brisa e a gente flutua calmamente. E solitária, não tem coisa mais solitária que pipa no céu?
Acho que _O_ grande desafio é aprender a ser pipa. Será que conseguimos?
Ia falar sobre inocência, mas BASTA. Senão isso aqui fica longo por demais.
PS1 - Adorei a idéia da faca.
PS2 - Escrever não alivia?
PS3 - Quero os meus 10%. De preferência, em dinheiro, notas de 10 e 50, não seriadas, por favor.
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